Dias de trevas

Mario Okuhara resgata a história que (provavelmente) seus professores não te contaram sobre a imigração japonesa e quer um pedido de desculpas do governo brasileiro
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Xenofobia e racismo como política de Estado, torturas, perseguições, prisões ilegais, cerceamento de direitos políticos, subemprego e confinamento em campos de concentração. Se o caro leitor não tivesse lido a linha fina desta matéria, provavelmente acreditaria que esta é mais uma narrativa sobre os obscuros tempos do Nazismo ou outras conhecidas manchas da historiografia mundial, mas o que os seus professores de história não te contaram é que este era o cenário para o japonês que aportasse com a sua família em Santos (SP) nos anos 40, durante a era Vargas.

Quando Getúlio decidiu descer do muro para o lado dos americanos em 1942, passando automaticamente a pátria brasileira de parceira comercial a inimiga declarada do eixo Alemanha, Itália e Japão, a ofensiva dos brasileiros começou por onde estava mais fácil: o próprio quintal.

Xenofobia disfarçada de nacionalismo e políticas públicas de repressão mascaradas como contraespionagem e segurança nacional foram parte da receita que resultou em episódios que custa-se a acreditar terem acontecido em terras tupiniquins, como a expulsão de 6.500 imigrantes japoneses da cidade de Santos em 8 de julho de 1943, por ordem do Governo, que dizia temer um controle nipônico de uma cidade litorânea e portuária e, por isso, estratégica nos tempos de guerra.

O que se viu, no entanto, foram camponeses, mulheres e crianças sendo confinados na hospedaria do imigrante da Mooca. Livros em Japonês foram proibidos, bem como falar o idioma em público. Rádios de ondas curtas, os únicos que recebiam notícias de além-mar, foram confiscados. A polícia vasculhava casas e imigrantes eram presos sem acusação formal, caso se recusassem a pisar na bandeira do Japão ou na foto do seu imperador. Os “amarelos”, “bodes” e “espiões”, como eram chamados, estavam sozinhos em campo inimigo e sem nenhuma notícia sobre o que acontecia no seu País de origem.

Era Vargas foi marcada pelo desrespeito aos imigrantes e seus símbolos nacionais (Foto: Reprodução/“Yami no Ichinichi”)
Era Vargas foi marcada pelo desrespeito aos imigrantes e seus símbolos nacionais (Foto: Reprodução/“Yami no Ichinichi”)

Quem agora luta para desenterrar essas histórias e obter do governo brasileiro a retratação pelas feridas físicas e morais infligidas aos japoneses durante a era Vargas até depois do pós-guerra é o documentarista Mario Okuhara. Paulistano, filho de japoneses que chegaram justamente nesta época, Mario lançou em 2012 o documentário  “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”, que mostra como a política de Estado brasileiro criou um efeito cascata que culminou em segregação e racismo pelos brasileiros e até assassinatos entre os próprios japoneses. “Na historiografia da imigração não temos muitos livros que se dedicam a esta parte. São pouquíssimos os relatos do período. Em 1997, estudando japonês, tive um contato mais profundo com essa história por meio dos livros que utilizava nas aulas com o professor, e foi um impacto revelador”, conta. À época, Mario e seus pais produziam o programa “Imagens do Japão”, exibido pela TV Bandeirantes até 2001. O periódico trazia notícias e reportagens sobre questões culturais do Japão, até que surgiu a ideia de fazer uma série de reportagens abordando este passado doloroso. O pai ficou receoso com a ideia. Trabalhando com TV durante o período da ditadura militar, foi obrigado a passar seus roteiros pela censura prévia e, mesmo após a redemocratização, ainda sobrou alguma insegurança. “Chegamos enfim ao consenso de produzirmos uma minissérie sobre o tema e eu comecei a procurar personagens em todo o interior do Estado de São Paulo”, lembra o documentarista, que após o falecimento do pai, em 2001, e o posterior término do programa “Imagens do Japão”, já tinha muito material captado. Por isso, Okuhara decidiu seguir em frente e a minissérie tomou ares de documentário.

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Livros em Japonês foram proibidos, bem como falar o idioma em público. Rádios de ondas curtas, os únicos que recebiam notícias de além-mar, foram confiscados. A polícia vasculhava casas e imigrantes eram presos sem acusação formal, caso se recusassem a pisar na bandeira do Japão ou na foto do seu imperador. Os “amarelos”, “bodes” e “espiões”, como eram chamados, estavam sozinhos em campo inimigo e sem nenhuma notícia sobre o que acontecia no seu País de origem

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irmãos em guerra

Ao todo, foram mais de 100 horas de material captado, condensados em uma hora e meia de filme. O título, “Yami no Ichinichi”, que em japonês significa “Dia de trevas”, está ligado ao assassinato de Jinsaku Awkiyama, um dos líderes da comunidade japonesa no Brasil, morto por Tokuiti Hidaka e outros três jovens patriotas que, confusos por conta da censura do governo Vargas, não acreditavam na rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial e tratavam seus conterrâneos, mais bem informados sobre o resultado do conflito, como o próprio Awkiyama, como traidores. O conflito, denominado “Vitorista-derrotista”, dividiu a colônia japonesa e resultou em muitos mortos e feridos. Dentro desse contexto, Okuhara procura desnudar a história sem apontar mocinhos e vilões. Todos, sob o olhar do documentarista, são vítimas da política de Estado do período.

Mario Okuhara, documentarista (Foto: Gabriel Bonamichi)
Mario Okuhara, documentarista (Foto: Gabriel Bonamichi)

Mexer em feridas, às vezes não totalmente cicatrizadas, exige tato e respeito. Mesmo sendo descendente de japoneses, o que já ajuda a ganhar um pouco da simpatia dos entrevistados, muitas vezes conseguir que personagens importantes desta época falassem para a câmera deu muito trabalho. “São histórias que ninguém quer mais ouvir e marcaram a vida das famílias. Estamos falando de morte, repressão, violência contra mulheres e crianças sendo presas. Alguns deles demoraram mais de sete anos para falar, por conta tanto do trauma que esta época causou na comunidade quanto da própria questão cultural japonesa, que prefere esquecer e seguir em frente”, lembra Mario, que inclusive luta até hoje, quatro anos depois de lançado o documentário, para conscientizar os imigrantes da necessidade de se esclarecer este período doloroso para uma superação de fato.

O objetivo do documentário, segundo Okuhara, era que essa fase oculta e sombria da história fosse de conhecimento geral. Por isso, disponibilizou gratuitamente o documentário pelo  YouTube, tanto em português quanto em japonês. Atualmente, o vídeo já conta com mais de 50 mil visualizações “Eu escolhi por ser uma plataforma mais rápida de ser compartilhada. Muita gente ficou impactada, surpresa e inclusive revoltada com essa história até então oculta do nosso País”, afirma.

O grande alcance da produção fez com que a história contada por Mario esbarrasse nos trabalhos de apuração da Comissão da Verdade, que investigou entre 2012 e 2014 as violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 e 1988. “Fui recebido pelo Adriano Diogo, presidente da comissão ‘Rubens Paiva’. Ele me atendeu maravilhosamente bem, mostrou muita afinidade com a cultura e entendeu que a história fazia parte dos trabalhos da comissão”, lembra Mario.

Relembrar e pedir perdão

No dia 10 de outubro de 2013, mais de 150 pessoas, grande parte descendentes de japoneses, participaram de uma audiência inédita, parceria da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, de São Paulo, com a Comissão Nacional da Verdade. Ali, 60 anos de silêncio se transformaram em um desabafo coletivo e diversas histórias foram apresentadas. Entre os presentes estava Tokuichi Hidaka, personagem central do documentário de Okuhara e um dos únicos remanescentes da época. Na audiência, depois de ouvir as histórias, a jurista Rosa Cardoso, uma das organizadoras da CNV, pediu desculpas aos japoneses. “Viemos aqui para participar da reconstituição dessas memórias, homenagear e pedir perdão”, disse, à época.

Além dos relatórios resultantes da Comissão Nacional da Verdade, Okuhara conseguiu apoio da colônia de imigrantes japoneses no Canadá, que desde 1988 (assim como os EUA) já pediram perdão publicamente pela perseguição aos imigrantes que aconteceu em seus territórios no mesmo período. Para reunir as diversas histórias que começaram a surgir a partir do documentário e do trabalho com a CNV, Mario criou o “Projeto Abrangências” no Facebook.  “O que iniciamos em 2013 já está consolidado em outros países. Por aqui, a plataforma de pesquisa ganhou força política com o que foi revelado na Comissão da Verdade. Mais pesquisadores e apoiadores apareceram, o que motivou a criação do projeto”, diz ele.

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“Viemos aqui para participar da reconstituição dessas memórias, homenagear e pedir perdão”, 

Rosa Cardoso, jurista e uma das organizadoras da Comissão Nacional da Verdade

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A busca de Okuhara, agora, é por um pedido formal de desculpas do governo brasileiro. Em dezembro do ano passado, foi protocolado no Ministério da Justiça um pedido de retratação pública. Lá, o processo anda a passos de formiga, agravado ainda pela crise política no Brasil, que naturalmente resvala no expediente ministerial.  Mas o passo está dado.

No entanto, ao contrário de outros países, que chegaram a indenizar os imigrantes e suas famílias, o Projeto Abrangências não tem fundo pecuniário. “Em todos esses anos, nunca nenhum imigrante mencionou qualquer coisa sobre dinheiro. O grande valor para o povo japonês é a sua honra. É importante restaurar o período Vargas e como eles trataram os imigrantes no Brasil. Em um país sem memória, com tantas violações, é um resgate não só da história da colônia japonesa, mas da história do Brasil”, completa o documentarista.

 

Assista ao documentário Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa

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