Dos muros para as galerias

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Os movimentos são cuidadosos, pacientes, concentrados. O pincel aos poucos espalha a tinta acrílica sobre uma tela de 100 cm x 60 cm, formando uma arte já quase finalizada. Respingado de tinta do tênis aos óculos, Guilherme Matsumoto dá uma pausa no trabalho, pega um cigarro e um café, e senta em um pufe em frente ao seu ateliê na Vila Monumento, zona sul de São Paulo, para falarmos. No muro às suas costas, estão grafitados peixes que são sua marca registrada quase desde 2007, quando escolheu a arte como profissão e estilo de vida. “Comecei antes de me formar na faculdade, pintava só de fim de semana. Sempre desenhei muito, meus irmãos faziam aula de desenho e me passavam muita coisa. Aí comecei a copiar figuras, criar desenhos, personagens. Desenhava meio mal, mas…”, ri xGuix, como assina suas obras. Antes do grafite, por pouco tempo na adolescência também usou a tinta para rabiscar. “O picho era no banheiro da escola, na carteira, com canetão no fundo do busão. Fiz até um rolê com uns moleques do Ipiranga, mas vi que não era muito a minha casa não”, comenta, lembrando que a ilegalidade faz um pouco parte da arte de rua e que algum estranhamento com a lei é parte do jogo. “E no fundo o grafite é isso também, né? Nunca vai deixar de ser ilegal e tal. Sempre vão querer invadir o metrô pra pintar o trem, o muro da prefeitura etc. Só que, hoje em dia, se você for pintar sem estar invadindo espaço público, vão gostar da arte, pedir pra fazer mais. O que acontece é muita denúncia, aí a polícia tem que mostrar serviço, que foi combater. Mas melhorou muito a abordagem do sistema”, explica.

 

No seu ateliê, um espaço de garagem com duas janelas e uma pia, paredes rabiscadas com pichos, quadros e grafites com seus personagens, além de muitas, muitas latas de tinta em spray empilhadas, Gui passa o dia entre pintar, falar com clientes, fazer orçamentos ou com um ou outro amigo que passa para conversar. O tempo todo o computador ou a vitrola estão tocando alguma coisa, do rap nacional, passando do funk ao soul e ao jazz. “Eu crio tudo que tem na minha cabeça aqui. Tento acordar cedo, mas é um problema que eu tenho. Só que aí compenso. Quando não tô pintando na rua, tô no ateliê”, diz. Essa rotina é bem diferente de alguns anos atrás, quando ainda pintava só por diversão e tinha um trabalho em horário comercial. “Trabalhava com design gráfico, escritórios bem normais, corporativos. Mas estava cada dia mais depressivo, me imaginava velho, trabalhando no escritório e que não era vida pra mim. Eu vi que eu curtia sentir o vento da tarde…”, sorri. “Depois do meu primeiro emprego, fui para uma marca de skate fazer estampa. Lá foi batendo na minha cabeça a ideia de tentar viver da arte, sem depender dos outros. Até que um amigo, Sipros, que pinta há mais tempo, veio trocar ideia no trabalho. Ficamos a tarde inteira falando de grafite. Aí voltei direto pra falar com o chefe, expliquei que não dava para trabalhar lá, ia tentar viver da minha arte. Ele entendeu e deu tudo certo”, resume.

Ao longo dos anos seguintes, Gui recheou os muros de diversos pontos de São Paulo, da 23 de Maio à Consolação, no centro e na periferia, como Grajaú e Itaquera, mas especialmente da Vila Monumento, bairro onde, além de ter o ateliê, mora desde sempre.

“Tenho uma relação especial com o bairro. Nasci, cresci e nunca saí. Maior prazer é pintar aqui”, comenta. As primeiras referências de arte também vieram de lá. Quando era pequeno, além da Turma da Mônica e da TV Cultura, um dos passatempos de Gui era andar com o irmão Bruno pelas redondezas para olhar os grafites de artistas como OsGemeos, Vitché, Jana Joana, Ise, Finok, Nunca, Coyo, Gueto, Cobal (Herbert Baglione), entre outros da região. Até por isso, ao transformar o grafite em profissão, o amor pela arte autoral teve mais peso do que o lado do negócio. “Trabalho autoral é visceral pra mim. Não me vejo grafitando um trabalho que alguém pediu para eu fazer de tal jeito.

Não tenho ânimo nenhum para fazer. Desde que eu comecei tento seguir essa linha, de criar coisa nova, personagens baseados no que eu passo, no que eu vejo. A arte é uma grande válvula de escape. Só cada um que sabe o que se passa na sua cabeça”, diz.

fotos: Gabriel Bonamichi e Guilherme Matsumoto (acervo pessoal)

do muro para a tela

Gui vai passando o pincel na tela sobre o azul do oceano. Acima da água, sobre uma rocha e contra um sol nascente (ou poente, dependendo de como você enxerga), uma gueixa segura entre as mãos o Kasato Maru, primeiro navio japonês a atracar no Porto de Santos (SP) em 1908, trazendo 165 famílias para uma nova vida no Brasil. No momento em que conversamos, a pintura ainda está incompleta, com os característicos peixes ainda apenas em contornos. “Essa tela inspirei no que meu pai conta e que eu não tinha ideia. De que foi um momento aterrorizante para as famílias, de deixarem seus filhos com 18, 20 anos atravessarem o mundo pra viver a vida no Brasil e nunca mais se verem”, conta entre pinceladas. A arte, que chama “A última despedida”, retrata um pouco da emoção e esperança de quem vinha para o Brasil sem saber se a vida ia dar certo, algo que fez parte da história da família do próprio Gui, que se de um lado vive de uma arte eminentemente ocidental, mostra traços tradicionais japoneses nas suas pinturas e no seu modo de ser, como o coque no cabelo e o costume de tratar os avós por batian (avó) e ditian (avô) ao citar suas raízes. “Tiveram que trabalhar muito pra viverem bem aqui. Não foi fácil para ninguém. Língua e cultura diferentes, com um puta futuro pela frente. Minha batian contava ainda que eles tinham que enterrar os livros, tinha problema em aprender japonês, era mal visto. Mas eles eram bastante tradicionais e na casa dela sempre tinha revista, desenhos japoneses… E inconscientemente eu peguei essas referências também. Eu tive muita influência do ocidente, não frequentei colégio com um monte de japoneses. Mas com minha batian e meu ditian tive muita influência japonesa. E a minha arte se mesclou na vivência que eu tenho. Sou paulista, mas com influência dos ancestrais”, resume.

bem-vindo

A despedida emocionada de Osaka, retratada por Gui, agora compõe a exposição “Yokoso”, que em japonês significa “bem-vindo”, idealizada pela galeria A7MA. Segundo Enivo, artista e grafiteiro há 18 anos e um dos sócios do espaço, a ideia de homenagear a imigração japonesa já vem desde que abriram a galeria. “É uma mostra contemporânea que sempre quisemos fazer. Tínhamos muitas referências de artistas japoneses dentro dessa história da street art. Inclusive, dois dos sócios são descendentes de japoneses, o Cristiano Kana e o Alexandre Enokawa. No começo eram apenas quatro artistas, mas não quisemos deixar ninguém de fora, então chegamos a 20 obras, o que foi um grande desafio para harmonizar no nosso espaço”, conta. Em exposição até este sábado (23/07), a Yokoso reúne obras em diversos formatos. Em comum, apenas que todas foram produzidas por artistas nikkeis (descendentes de japoneses nascidos fora do Japão). Desde a abertura, em 16/06, a mostra tem atraído um público médio de 300 pessoas em finais de semana ao número 95B da Rua Harmonia, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. “Essa é uma das exposições mais bonitas que fizemos. A gente percebe que é um apanhado de histórias criando o novo. Cada um tem uma linguagem, família, história e carrega suas cores e traços. Cada artista é um universo. Tenho certeza que o resultado foi além do que a gente imaginava”, completa Enivo.

Enivo, um dos sócios da galeria A7MA (Foto: Gabriel Bonamichi)

Apesar de já ter participado de outras exposições menores, segundo Gui, a Yokoso chega para marcar novos mares para seus peixes, dos muros para as telas. “Desde que comecei a grafitar eu pintava uma coisa ou outra, mas ficava doido dentro de quatro paredes. Agora tenho produzido umas telas, estou no foco de expor algumas artes minhas, tentando cumprir esta meta”, diz. “Eu acompanho a A7MA desde o início, quando era só um coletivo na casa da Aclimação, receber o convite foi uma honra. O Brasil tem muitos grandes artistas descendentes de japoneses e poder juntá-los em uma exposição é foda!”, comenta o grafiteiro, que até faz planos de um dia realizar uma exposição própria, mas sempre deixando claro que não pretende descer dos muros ou pendurar as latas de spray. “O spray é minha essência na arte, inclusive utilizo na tela junto com a tinta acrílica”, define.

Expor em galerias, ser reconhecido dentro da cena e aparecer até em programas da TV Globo já ajudaram o grafiteiro a conseguir mais trabalhos e a virar referência para quem está começando. “Acho importante incentivar. Eu tive muita gente, mas também me arrependi de conhecer pessoas que eu admirava e me trataram mal. O começo é difícil pra caramba, você sempre acha que nunca vai pintar bem”. O reconhecimento e a exposição, embora ajudem a virar alguns trabalhos, também não garantem a carteira cheia. “Viver do grafite, de arte, nunca vai ser fácil, a não ser que você estoure. O dinheiro é um mal necessário, mas tem que ter cuidado. Então tento manter o pé no chão”, reflete. O mesmo vale para a fama, diz. “No começo, queria muito ser o artista mais famoso, mas hoje em dia eu penso mais em ser feliz”, finaliza e sorri, entre um gole e outro de café.

Do muro ao fundo, os peixes sorriem de volta. 

 

exposição Yokoso

fotos: Gabriel Bonamichi

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