Toda nudez será perdoada

Projetos Pitéu e Essência convidam mulheres a se descobrirem por meio do nu e fortalecem o autoconhecimento e a libertação do corpo e da mente
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O corpo fala. Essa máxima parece fazer ainda mais sentido nas fotos de nudez. Curvas, expressões, luz, sombra. Tudo se torna ferramenta. Segundo as fotógrafas Mari Blessa e Natália Garcia, idealizadoras de projetos cujo corpo feminino é o protagonista absoluto, são ferramentas para a liberdade. Sem filtros, os ensaios revelam a faceta mais pura da mulher e instigam o debate sobre tabus, feminismo e autoconhecimento. A pedido da Revista Persona, as duas profissionais se conheceram e toparam o desafio de fotografar uma à outra. Em um ensaio exclusivo, ambientado no aconchegante Lavé Ta Nouvelle – Boutique de Brechó, no bairro do Ipiranga (SP), elas mostram como, mesmo com personalidades e estilos de vida diferentes, enxergam na fotografia uma forma de expressão e luta pelos direito das mulheres.

Fotógrafa Natália Garcia, por Mari Blessa

Mais do que belas imagens e exemplos de compreensão do próprio corpo, o legado de projetos como o Pitéu e o Essência, idealizados respectivamente por Mari e Natália, é a abertura de um diálogo sobre os direitos de exposição e expressão do corpo feminino em um país conhecido pelas belas mulheres. Martha Vasconcellos, Miss Universo em 1968; Helô Pinheiro, a eterna Garota de Ipanema; ou Gisele Bündchen, modelo mais bem paga do mundo em pelo menos duas oportunidades, segundo a Revista Forbes, são algumas das beldades que justificam a fama. Se toda ginga e graça nacional viajaram o mundo sob o manto da sensualidade e – porque não dizer? – da sexualidade, como tornar o corpo uma tela em branco, livre de erotismo?

O Feminismo é uma das respostas possíveis para essas questões. O movimento que defende a equidade entre homens e mulheres surgiu ainda no século XIX e, a passos tímidos, já colhe seus frutos. Se por um lado a questão de gênero avançou no Brasil e abriu precedentes para um debate amplo sobre o papel da mulher, por outro, há muitas correções históricas trancadas em uma gaveta qualquer do passado, como destaca Natália. “A mulher está conseguindo, em termos profissionais, estabelecer um espaço, seja em empresas, na arte. E acho que isso é um reflexo do momento político que vivemos hoje. Mas em relação aos direitos, a situação ainda é muito precária. Não precisa ir muito longe, em localidades um pouco mais afastadas não há assistência em casos de estupro, de espancamento”, analisa a fotógrafa.

Mariana expande ainda mais o debate e lembra da matéria da revista IstoÉ, edição 2417, de 1º de abril último, cujo título é “Uma presidente fora de si”. “Muito do que a gente viu nessa capa retrata o que a sociedade ainda enxerga na mulher: uma histérica, louca, que não sabe administrar como um homem. Logo em seguida, um interino assume e monta ministérios que, como se não bastasse serem formados majoritariamente por homens, são homens conservadores”, expõe.

Fotógrafa Mari Blessa, por Natália Garcia
Fotógrafa Mari Blessa, por Natália Garcia

As mulheres são hoje 51% da população brasileira. Ainda assim, enfrentam diariamente a realidade de minorias. Salários inferiores, situações de assédio e violência são realidades ainda muito presentes em uma sociedade dita moderna. Nesse contexto, parece ainda mais distante tratar a nudez com naturalidade, mas não são essas as únicas questões a serem discutidas. O machismo e a sexualização do corpo feminino ganham força nas redes sociais – um dos motivos que levaram Mari a interromper, mesmo que temporariamente, sua atuação no Projeto Pitéu. “Os homens têm se apropriado desse tipo de foto online. Eles veem apenas o corpo de uma mulher pelada na internet. Não me desiludi com o projeto, mas com a linha que ele tomou online”, desabafa.

O assédio também foi um problema enfrentado por Natália. “Já fui assediada verbalmente por estar trabalhando com o nu. Falta a compreensão de que uma mulher não está posando nua porque quer aparecer para um homem, mas porque ela quer se aceitar, se permitir. Isso tem que parar, espero que as pessoas aceitem o nu como uma forma de arte”, completa.

Em alta nos últimos anos, a palavra empoderamento ganha força em ensaios de nudez. Para Natália, as fotos mostram que existe uma beleza em cada mulher. “Fico feliz ao notar essa movimentação das mulheres. É algo que impulsiona a gente e mostra que as mulheres realmente estão se aceitando mais. E isso começa com a quebra de padrões, com as modelos plus size, com a inclusão de diferentes biotipos na publicidade”, explica. Mariana concorda com a necessidade da quebra dos ditos “padrões de beleza”, mas diverge quando o assunto é o empoderamento. “Empoderar é dar poder a alguém, ou seja, eu tenho poder e eu vou te dar esse poder. Eu não dou poder a ninguém. As pessoas se apropriam da sua própria imagem. Eu só traduzo aquilo”.

Na galeria de imagens da Revista Persona você encontra fotos selecionadas por Natália e Mari. São imagens de mulheres reais que passaram a encarar o próprio corpo de maneira diferente depois dos ensaios.

Todo charme da pedreiragem

Foto do Projeto Pitéu (Mari Blessa)

“O nome Pitéu surgiu, primeiro, porque é uma palavra nordestina e é de lá que vem minha família. Eu quis trazer essas raízes para o projeto. E eu queria trazer um negócio mais ‘pedreirão’ mesmo. ‘Sou pitéu e não estou aqui pra fazer carinha bonita pra você. Sou assim e é pra mim, por mim’. Além, claro, de querer desestigmatizar essa palavra que é muito usada para assediar as mulheres na rua”, explica Mari. Encubada desde o finalzinho de 2014, a iniciativa quer “mostrar que o corpo é um corpo apenas”, compreensão que, para a fotógrafa, traz libertação das amarras geradas pelos estereótipos que assombram as mulheres.

Mariana explica que sempre foi espectadora desse estilo de fotografia e quando decidiu criar um projeto pra chamar de seu, cogitou realizar intervenções urbanas para fomentar o debate sobre o feminismo. “Tinha algumas coisas bem ousadas que não consegui colocar em prática. Por exemplo, fazer lambe-lambes e espalhar por aí. É uma das formas de mostrar, de ocupar a cidade com o feminismo, com a cultura do free nipples (movimento favorável à libertação dos mamilos e queda dos tabus sexistas relacionados ao corpo feminino)”.

Ela conta que, por ser jornalista – por formação e em exercício -, não costuma interferir no que fotografa. “Eu tenho tentado ter um olhar mais artístico, colocar elementos que tragam isso à fotografia, mas na essência a foto é o que ela é. É a pessoa como ela se vê e como ela quer se mostrar”. Usar ou não maquiagem, peças de roupas ou referências que componham o ambiente é uma decisão tomada única e exclusivamente pela modelo.

Dona de uma paixão sem precedentes pela fotografia, vê no Pitéu um projeto de vida. No entanto, não está nele o seu ganha pão. “Não consigo vender meu trabalho. Ele não tem preço. Acredito que essa seja minha maneira de suprir a necessidade de realizar um trabalho social, trabalhar com a fotografia como autoconhecimento feminino”, avalia.

Essência: a mulher nua e crua

Projeto Essência (Foto: Natália Garcia)
Projeto Essência (Foto: Natália Garcia)

Uma conversa entre amigas, uma sessão de fotos despretensiosa: nascia assim o Projeto Essência. Depois de convidar uma conhecida para se despir diante de sua lente, Natália ficou surpresa com o retorno que teve. “Ela me ligou e falou: ‘Obrigada, eu sou uma outra pessoa depois das fotos. Pra mim foi um sessão terapêutica. E eu estava precisando muito disso’”.

A necessidade de compreender e mostrar o corpo feminino como algo natural deixou ainda mais forte na fotógrafa a vontade de criar um projeto com esse recorte. E foi no início desse ano que as sessões ganharam um nome e novos cliques. Vergonha, desconforto com o próprio corpo ou medo da exposição foram colocadas de lados pelas mulheres que posaram diante do olhar atento e artístico dessa fotógrafa. Momentos que Natália descreve como um “resgate dela mesma”. “O Essência é essa coisa do cru mesmo. Eu acho que a fotografia consegue resgatar o que a pessoa é através de um olhar. E captar isso é uma forma de também me autorretratar em cada uma das modelos. É uma troca”, completa.

A primeira experiência de Natália com ensaios que trabalham a autoestima da mulher é um pouco mais antiga. Há cerca de três anos foi a vez de outra amiga ser clicada. O convite surgiu para dar uma forcinha após um término de namoro. Mais uma vez, o resultado chamou a atenção da profissional. “Toda mulher quer ser fotografada. Por mais que ela fale que não liga para foto, é algo que transforma. E foi o que aconteceu nesse dia. Ela ligou feliz com as fotos e com ela”, destaca.

Quebrar o paradigma do nu como pornográfico é outro objetivo no trabalho dela. “Eu procuro usar muito a poesia, não o lance do sexual, do nu envolto em sexo. É a libertação e a aceitação do corpo da mulher”, resume.

E é assim, contando uma história, foto por foto, que essa estudiosa do comportamento humano resgata um pouco de si e muito de quem se deixa fotografar. Embalada por ensaios feitos de luz e sombra, curvas e nuances que Natália apresenta um atalho para cada mulher encontrar sua própria essência.

Vale lembrar que exposição na internet é um assunto delicado. Por isso, é importante conhecer os profissionais escolhidos para retratar a nudez. Procure referências, converse com outras mulheres que vivenciaram a experiência e converse com a profissional, preferencialmente, mais de uma vez. Depois, basta enxergar sua própria beleza, como lembra a Natália: “O que seria da gente se a gente não se amasse? Se ame, se descubra, se liberte e se aceite! A essência de qualquer pessoa é bonita”, finaliza.

 

Sobre as fotógrafas

Mariana Blessa tem 27 anos, é paulistana, formada em Jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi, pós-graduada em Comunicação com o Mercado pela ESPM. Concluiu a Formação em Fotografia pelo Senac e estudou Fotografia em Preto e Branco no International Center of Photography em Nova York. Foi com Andrea Lavezzaro que aprendeu a fotografar nudez no ws Arte do Nu. Tem como referências Fernando Schlaepfer (@anendfor) e Corwin Prescott (@corwinprescott). Sua meta de vida é “sobreviver ao caos”.

Natália Gracia tem 30 anos e é formada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André. Apaixonada por fotografia desde 2008, é autodidata. Fez cursos e workshops como a “introdução à fotografia – Armando Prado”, “fotografia de moda – Paulo Ferreira e Cássia Tabatini” – , “fotografia sensual – Henrique Cesar Faria”, “direção para modelos – Bernardo Moreira e Raphael PS” e ‘Book em estúdio – Primo Tacca Neto”. Todos para observar, captar, retratar e transformar instantes em eterno. Tem como referência Irving Penn, Marta Bevacqua, Bob Wolfenson, Nana Moraes, Jr. Duran, Guy Bourdin e Mario Testino. Ser feliz, estar em equilíbrio e nunca parar de caminhar são seus desejos.

Agradecimento: Lavé Ta Nouvelle – Boutique de Brechó – Tel: (11) 4327 – 8880

Localizado ao número 721 da pacata rua Oliveira Alves, do tradicional bairro do Ipiranga, quase escondido, está o Brechó Lavé Ta Nouvelle. O nome, que significa “lavou tá novo” em francês, já deixa claro o objetivo social do espaço: vender boas peças a preços acessíveis para todo o público. O Brechó funciona na mesma casinha charmosa desde 2014, de segunda à sexta, das 10h30 às 19h (e fins de semana ocasionalmente). Os proprietários, Alessandra Gomes e Vitor Suman, agitadores culturais da região, têm um projeto de expansão, que visa a criação de uma casa de cultura no local, com locação do espaço para aulas de música, artes marciais, exposições e sessões fotográficas, tatuagens e muito mais. Há ainda festas mensais no local com a participação de artistas da região.

Na loja física é possível encontrar roupas e acessórios nos mais variados estilos a partir de R$ 1. Há ainda eletroeletrônicos, brinquedos, objetos para decoração, e até uma sessão recheada de peças infantis. Como se isso não bastasse, a recepção calorosa dos proprietários e o bom papo são outros importantes atrativos.

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