As torres gêmeas e a igualdade racial entre os jornalistas

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Na manhã de 11 de setembro de 2001, em uma sala de reuniões do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, ali no começo da rua Rego Freitas, eu e (salvo algum engano, escrevo de memória) os colegas Oswaldo Faustino, Benê (Benedito Egydio dos Santos), Francisco (Chico) Soares, Oswaldo de Camargo, Paulo Vieira Lima e Ronaldo Junqueira, Noedi Monteiro e Martin Vieira Ferreira (não se assustem, ainda vão entrar mulheres, e muitas, nessa história) assistimos pela TV, sem entender direito do que se tratava, as imagens do incêndio em uma das torres gêmeas World Trade Center, quando o segundo avião se chocou contra a outra torre.

O clima na sala era tenso também por outro motivo. Em meio àquelas imagens assustadoras, discutíamos a criação de um organismo de combate ao racismo no interior do nosso Sindicato e tínhamos uma divergência de fundo. A preocupação era atuar no sentido de aumentar a presença de negras e negros nesse mercado de trabalho e também  acompanhar e, na medida do possível, contribuir  para melhorar a cobertura jornalística dos temas de interesse para a população negra. O problema é que alguns queriam criar uma instância a ser integrada apenas por negras e negros e outros um organismo aberto a todos os interessados. Adianto que não conseguimos chegar a um acordo.

As conversas sobre a questão racial no sindicato haviam começado no segundo semestre ao ano 2000, a partir de uma proposta de Noedi Monteiro, na época diretor da entidade, que resultou na criação do Comitê Permanente de Jornalistas Negros. No decorrer do primeiro semestre de 2001, abriu-se um debate político sobre a pertinência da inclusão da palavra “negros” no nome da comissão. Apesar da resistência de alguns companheiros, a maioria dos participantes daquele quadro de discussões acabou apoiando a ideia de que a permanência daquela palavra poderia se tornar um obstáculo à participação de não negros nas atividades a serem implementadas. Foi como resultado desse consenso, que surgiu o nome de Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, resumido na sigla Cojira, uma sugestão de Paulo Vieira Lima. Em julho de 2001, foi publicado no site do sindicato um manifesto assinado por Amélia Nascimento, Benedito Egydio dos Santos, Esmeralda Ribeiro, Flávio Carrança, Francisco Soares, Maurício Pestana, Oswaldo de Camargo, Oswaldo Faustino, Paulo Vieira Lima, Ricardo Alexino Ferreira e Ronaldo Junqueira. Nele, estão definidos os objetivos que norteiam até agora o trabalho das comissão:

  • Mapear e analisar a situação dos jornalistas negros no Estado de São Paulo;
  • Acompanhar com olhar crítico o noticiário relacionado à questão racial;
  • Estimular a capacitação dos profissionais que já atuam na imprensa para que tenham uma melhor compreensão da questão racial;
  • Criar oportunidades para que os jornalistas negros, em especial, e os jornalistas sem recursos financeiros, de maneira geral, tenham acesso aos mecanismos de aperfeiçoamento técnico-profissional;
  • Organizar um Banco de Dados sobre a questão racial e a imprensa negra;
  • Utilizar o Jornal Unidade e todos os meios de comunicação do Sindicato para divulgar matérias e discutir temas relacionados à questão racial.”

A pergunta que eu fazia naquela época era esta: se o racismo é um problema estrutural da sociedade brasileira, que afeta todas as suas instâncias, de que maneira ele se manifesta no mercado de trabalho em que atuo e na produção cotidiana dos jornalistas? Foi ela que serviu de impulso inicial para que, um pouco antes da virada do milênio, aceitasse um convite do então presidente Sindicato, meu querido amigo Fred Ghedini, para discutir o que deveria ser feito para dotar o sindicato de uma política de combate ao racismo.

Com algum atraso, nós jornalistas seguíamos o exemplo dos sindicatos, federações e centrais que anos antes constituíram instâncias de combate ao racismo. O núcleo inicial que realizou esse debate era formado por profissionais experientes, que tinham em comum a vivência de muitos anos em diversas redações e graus variados de proximidade com o movimento negro. O que não havia era muito conhecimento acumulado sobre o tema. Fui procurar e encontrei na USP uma tese do Ricardo Alexino e outra do Fernando Conceição e também alguns artigos de outros pesquisadores e pesquisadoras. Juntei os artigos em uma apostila como subsídio para a discussão, material que depois serviu de base inicial para a coletânea Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro, que Rosane Borges e eu organizamos e que foi publicada Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – IMESP, parceira também na publicação da obra Imprensa Negra, de Clóvis Moura e Miriam Nicolau Ferrara, com fac símiles de importantes jornais da imprensa negra paulista.

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A pergunta que eu fazia naquela época era esta: se o racismo é um problema estrutural da sociedade brasileira, que afeta todas as suas instâncias, de que maneira ele se manifesta no mercado de trabalho em que atuo e na produção cotidiana dos jornalistas?

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Houve também, em 2007, um evento com a jornalista indígena norte-americana  Mary Kim Titla e o jornalista Bob Butler, da Associação Nacional dos Jornalistas Negros dos Estados Unidos (NABJ), que abordou temas como a igualdade de oportunidade no mercado de trabalho do setor de comunicação e o tratamento dado pela mídia aos negros e índios, uma oportunidade para  conhecer melhor a estrutura organizativa dos jornalistas negros do Estados Unidos, que, diferentemente do Brasil, é completamente independente dos sindicatos.  Ainda em 2007,  uma parceria com a Coordenadoria do Negro   do município de São Paulo (Cone) permitiu a realização do curso “Jornalismo e Relações Raciais: uma reflexão para cidadania”, ministrado sob a forma de workshops, aulas expositivas, exibição de filmes, análise de jornais impressos, comerciais e institucionais, que contou com expressiva participação  de jornalistas, estudantes de jornalismos e outros interessados.  

Ao longo desses 15 anos de existência da Cojira SP houve períodos de bastante atividade e outros em que quase nada foi feito. Agora mesmo atravessamos um fase meio de vazante, mas creio que dá pra dizer que participam com mais frequência da comissão  de São Paulo Cláudia Alexandre, Cinthia Gomes, Guilherme Soares  Dias, Juliana Gonçalves, Oswaldo Faustino, Paola Prandini, Pedro Borges e Rosângela Ferreira Borges. E, felizmente, não estamos sozinhos. Existem outras iniciativas importantes, como a Frente de Mídias Negras, por exemplo. Além disso, mais ou menos na mesma época em que discutíamos a criação da Cojira em São Paulo, surgia no Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul o Núcleo de Comunicadores Afrodescendentes, com o objetivos similares; em seguida veio a Cojira RJ, no sindicato da cidade do Rio de Janeiro, depois a de Brasília (DF), Alagoas e agora mesmo acaba de ser criada em Londrina a Cojira Norte do Paraná. Ah, e a Fenaj, Federação Nacional dos Jornalistas, tem a Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Étnico-racial da Federação Nacional dos Jornalistas (Conajira), que pretende congregar todas as comissões dos estados.

Bom, depois desse relato meio laudatório, seria lícito perguntar se isso tudo serviu para alguma coisa. Sim e não. Penso que as Cojiras/Núcleo contribuíram em muito para o aprofundamento da reflexão, inicialmente restrita ao âmbito acadêmico, sobre o papel da imprensa e dos meios de comunicação com relação ao racismo, debate que nos últimos anos ganhou um espaço maior na agenda do movimento negro, a partir do momento em que se percebeu que o jornalismo pode ser um instrumento poderoso tanto para o reforço ou a produção de preconceito quanto para a promoção da igualdade. Essa mudança teve significativa contribuição dos jornalistas negros e antirracistas organizados em seus sindicatos.

Por outro lado, uma década e meia após a queda das duas torres nova-iorquinas e de muita mudança no mundo, pelo menos pra mim, é evidente que vários dos principais objetivos apontados pelo manifesto da Cojira SP estão longe de serem alcançados. O que fazer? Um das propostas que nós aqui em São Paulo pensamos e que estamos tentando encaminhar é realizar o quanto antes um seminário sobre a equidade racial nas empresas jornalísticas. O objetivo é, a partir dele e com base na experiência de categorias que já aprovaram cláusulas de promoção da igualdade racial em seus acordos trabalhistas – como bancários e comerciários – construir uma proposta sobre o tema para ser apresentada aos patrões de nossa categoria. Será que é viável? Não sei, mas tenho certeza que nossa obrigação é tentar.

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