A política no lugar dela: a sala de aula

Em tempos de iniciativas como Escola sem Partido, startup Pé na Escola coloca estudantes para aprender política por meio da criatividade
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Um dos países tinha o território no formato de coração. Um lado cinza, outro vermelho, cortado no meio por um rio. Na explicação de Enzo:

Só desse lado cinza as pessoas trabalham, todo mundo é escravo. Eles vivem na pobreza e em guerra fazendo coisas pro outro lado. Então, desse outro lado, vermelho, as pessoas só se divertem. Do lado vermelho, as pessoas não sabem o que acontece do lado cinza, porque não aparece na TV e elas estão sempre ocupadas curtindo a vida.

A professora pergunta:

– E vocês acham que esse país é uma democracia?

Rafael logo aponta para o lado vermelho do cartaz:

– Desse lado é, sim!

Democracia, ditadura, respeito aos direitos humanos, escravidão e pena de morte são conceitos normalmente distantes da sala de aula. O estudante vê os políticos na TV, as manifestações nas ruas, ouve falar de reis, ditadores e presidentes em livros de história, mas muitas vezes precisa assimilar e conectar aquilo tudo sozinho à sua realidade. “A política está inserida em toda a vida dos adolescentes, menos na escola. Se a família não fala no assunto, ele acaba aprendendo pela televisão ou tem que ser autodidata, pesquisando na internet”, afirma Mariana Vilella, bacharel em Direito e uma das idealizadoras da startup Pé na Escola, que desenvolve atividades criativas de educação política que se integram à grade curricular do ensino fundamental 2 e médio, com o objetivo de diminuir o abismo de conhecimento dos adolescentes entre 12 e 17 anos, que ouvem falar de política, mas não a entendem de fato.

Equipe da startup Pé na Escola em ação na Virada Educação
Equipe da startup Pé na Escola em ação na Virada Educação

As atividades são personalizadas e contam com a participação dos professores, que trazem a partir da experiência com a turma em sala de aula o que é interessante ser abordado e de que forma. “É importante que a escola participe o máximo possível, uma vez que já existe uma rotina com os alunos. Às vezes, mais de um professor aprova as atividades, ajusta. A ideia é que seja feito de uma forma sutil e atenda o que a escola precisa, por isso a integração com os professores é fundamental”, explica Mariana. O trabalho da empresa com a escola é sempre feito pessoalmente, com a participação dos outros três sócios de Mariana, todos, como ela, formados em Direito pela USP e com pós-graduações na área de educação. Em tempos de aversão do povo a assuntos políticos e especialmente partidos, incluindo iniciativas como o Escola Sem Partido, o Pé na Escola segue pela contramão e propõe que o ensino da política é importante, sim, para os jovens. “Política não é partido. Claro que ninguém quer um ensino partidarizado e nós mesmos fazemos questão de mostrar que somos apartidários, mas hoje há o discurso do ‘quanto menos falar, melhor’, em que a escola não aborda temas como gênero, religião e a própria política em sala de aula. Inclusive, muitas escolas estão orientando os professores a não falar. Aí a criança vê no dia-a-dia, liga a TV e a política está lá, mas não pode perguntar para o professor? Junto à família, a escola é uma das maiores referências do adolescente. Essa história de política, religião e futebol não se discute não é verdade. A gente discute. Por ficar tanto tempo sem discutir que chegamos a este momento da política nacional”, reflete a empresária.

Do sistema político do País ao grêmio estudantil da escola, durante as atividades propostas pelo Pé na Escola os estudantes lidam com diversas facetas da sua realidade cotidiana.  “Trabalhamos as questões macro da política, como democracia e direitos humanos, por exemplo, mas também a realidade do ambiente escolar, desde aprimorar a participação dos alunos e dos pais no cotidiano da escola, até debater questões de gênero. Ouvimos o que eles têm a dizer e trabalhamos em atividades participativas, simulando muitas vezes instituições reais como o Supremo Tribunal Federal ou a Câmara de Deputados, por exemplo. A ideia é que o aluno seja protagonista na experiência de aprendizado”, destaca Vilella. O formato das atividades não é engessado e pode ir de um dia de palestra até a um planejamento mais extenso, dependendo do que a escola precisa. Segundo Mariana, em algumas escolas o projeto desenvolvido chegou a levar mais de quatro meses.

Seu País numa folha em branco

Adolescentes participam da atividade “Crie um País”

O território criado por Enzo e Rafael no início deste texto – e reproduzido no blog da empresa – é parte de uma das atividades de maior sucesso no repertório do Pé na Escola, o “Criando um País”. O jogo, que já foi realizado com mais de 400 crianças, separa os alunos em grupos e dá a eles o desafio de imaginar uma sociedade do zero, com nada mais que uma cartolina e canetas. Os participantes definem, com a ajuda de cartões com perguntas orientadoras (que não necessariamente precisam ser respondidas), como será o território, de que maneira será formado o governo, quais serão as leis e quem será o responsável por criá-las. O resultado, conta Mariana, quase sempre é inusitado. “Aparece de tudo. Já tivemos até um país governado por padres, seres supremos e até por um Pokémon, que todos tinham que obedecer. Feudalismo, então, tem de monte. Por conta dessas respostas, o professor muitas vezes acha que eles não entenderam a atividade, mas a discussão política que pode ser criada em cima de um País governado por um Pokémon supremo é enorme, incluindo conceitos de teocracia e democracia, por exemplo”, explica.

A democracia, aliás, é sempre um conceito-chave nos debates. Primeiro porque a atividade em si é uma experiência democrática. Em grupos de cinco a oito participantes, os alunos entram em diversos conflitos na hora de decidir aspectos importantes do País e vivenciam a dificuldade de estar em uma sociedade onde muitas vezes as pessoas que nela estão inseridos têm ideias diferentes de como as coisas devem ser. E quando é difícil tomar uma decisão, entram as saídas menos democráticas (e engraçadas) possíveis, como o País que era pacífico com todos, menos com quem não é:

– O nosso país vai ser 100% pacífico, ninguém vai ter preconceito. – disse Laura, de 13 anos, com orgulho.

Francisco, de outro grupo, questionou:

– E o que vai acontecer quando alguém tiver preconceito?

Laura respondeu:

– Não vai existir preconceito!

Francisco insistiu:

– Mas e se alguém tiver preconceito?

Laura cedeu:

– Vai perder um dedo, depois outro, depois o pé, a perna…

A partir de cenários assim, a equipe e o professor atuam no sentido de gerar o debate e fazer os próprios alunos pensarem se as saídas apontadas por eles são as ideais. “Não vamos com discurso moralista ou conceitos prontos de certo e errado, mas sempre tentamos trazer um olhar voltado para os direitos humanos e as minorias”, explica Mariana.

Mariana Vilella, do Pé na Escola, realiza jogo "Criando um País" com adolescentes
Mariana Vilella, do Pé na Escola, realiza jogo “Criando um País” com adolescentes

Atualmente, o Pé na Escola trabalha tanto com escolas particulares quanto públicas, mas por questões burocráticas, o trabalho é feito sem custo no caso das instituições estaduais ou municipais, conforme conta Mariana. “É preciso vender para a secretaria, entrar em licitação. Por isso, preferimos, ao fechar um contrato com uma escola particular, realizar o mesmo trabalho, gratuitamente, para uma escola pública. Assim as instituições privadas financiam as públicas. Além disso, também estamos indo atrás de patrocínio com empresas”, diz.

Como os projetos são totalmente personalizados e contam com o envolvimento direto dos quatro sócios em todas as atividades, é limitada a quantidade de escolas que eles conseguem atender por vez, mas a ideia no futuro é poder trabalhar com mais instituições, porém, sem perder a visão ampliada que eles alcançam com a imersão em grupo, segundo conta Mariana. “Nosso nome diz muito sobre o que queremos ser. Não vamos tirar o pé da escola. Temos como objetivo sempre trabalhar diretamente e estamos desenvolvendo materiais que podem ser trabalhado com os professores, que se tornarão multiplicadores das atividades em sala de aula”, conclui a empresária.

Pé na Escola na Virada Educação

Fotos: Equipe Persona

 

 

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3 comentários

  1. julho 28, 2017 at 7:54 am — Responder

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