Tibúrcia, Rufina e Liliana

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 Cementerio de La Recoleta, no coração de Buenos Aires, era a vista que me oferecia a janela do hotel no qual me hospedei. Da vidraça podia imaginar o que me aguardava, mas adiei por algumas horas a visita, como que a sorver em goles pequenos a expectativa pelo que ali encontraria.

Uma leitura rápida no guia indicava que a necrópole era muito mais do que isso, e se tornara um museu a céu aberto, a exibir, além de histórias, uma infinidade de obras de arte na forma de esculturas religiosas e pagãs. Transpor o portal monumental encimado com o epitáfio Requiescant in Pace foi como entrar em um mundo onde, cercado por muros intransponíveis à noite, os mortos permanecem vivos, apenas não podem sair.

Uma rápida passada pelo mausoléu simples e modernizado de Eva Perón, a Evita, idolatrada pelas massas populares argentinas, ainda mais depois das histórias sobre o suposto roubo do corpo, pelos opositores políticos de seu marido presidente, Juan Domingo Perón.

E, depois, a busca pelo inusitado.

O amor 1 – Rufina Cambaceres

Rufina Cambaceres - By Barcex - Own work, CC BY-SA 3.0
Rufina Cambaceres –  (Barcex – CC Commons)

Dizem que sua alma vaga pelo cemitério durante a noite, em forma de uma dama de branco. Mas nem a lua cheia que iluminava o céu de Buenos Aires durante minha estada me permitiu sequer ver um rastro de seu vestido por sobre o muro, a partir da janela do hotel.

“La Cambaceres” era filha de uma aristocrática família e morreu no dia em que completaria 19 anos, em 1903. Conta a história que, para abreviar a profunda dor de seus pais, a jovem foi enterrada às pressas. Dias depois, funcionários da Recoleta estranharam uma movimentação de terra no túmulo da moça e resolveram abrir seu caixão. Teriam encontrado o corpo de Rufina fora da posição original e a tampa interna do esquife com marcas de unha. A infeliz teria sido vítima de uma crise de catalepsia e enterrada viva.

Os relatos continuam: a mãe de Rufina resolveu então homenageá-la e mandou construir um túmulo de mármore, com o caixão também de pedra à mostra, com o nome da filha. Uma porta envidraçada seria a alegoria da possibilidade de vigiar o sono eterno da filha, caso ela tentasse novamente retornar à vida. Do lado de fora, encomendou a escultura de uma moça segurando a maçaneta de uma porta, que seria a representação da tentativa de sua filha de sair do mundo dos mortos.

O amor 2 – Liliana Crociati

Liliana Crociati - Jose Luis1972 - Own work, CC BY-SA 4.0)
Liliana Crociati – Jose Luis1972 – Own work, CC BY-SA 4.0)

“Perché?”, indaga o pai de Liliana Crociati, em poema escrito por ele em italiano e reproduzido na lápide em frente ao túmulo da filha, em uma das mais belas esquinas do Cementerio de La Recoleta. Inconformado com a morte súbita da jovem, aos 27 anos, vitimada por uma avalanche durante sua lua de mel na Áustria, ele mandou trazer o corpo de Liliana à Argentina para descansar no túmulo mandado fazer pela mãe dela, em estilo gótico, e que reproduz a entrada do quarto da jovem, quando solteira. Uma escultura em tamanho natural de Liliana, com longos cabelos, ao lado de seu inseparável cão Sabu, é a demonstração do amor dos pais pela filha. Ouve-se pelas alamedas da Recoleta que o cão morreu no mesmo dia que sua dona.

Transtornado, o pai da moça escreveu o poema que pergunta o porquê de a natureza, invejosa de tanta beleza, tê-la destruído e também o seu coração.

O rancor – Tibúrcia Dominguez

Tibúrcia Dominguez (Reprodução)
Tibúrcia Dominguez (Reprodução)

Tibúrcia mandou construir um grande mausoléu em homenagem à memória de seu marido. Mas o mausoléu de Tibúrcia Dominguez é uma evocação para a posteridade de suas desavenças conjugais. Os pássaros da Recoleta contam que Salvador María Del Carril foi um homem muito rígido, tanto em questões políticas quanto em sua vida conjugal. O mausoléu de Salvador del Carril representa uma histórica briga com sua mulher. Ela teria começado a levar uma vida de estroina e, sem pedir conselhos a seu marido, contraiu vultosas dívidas.

Relatam os gatos que habitam a Recoleta que, um dia, Salvador publicou uma carta por meio da qual avisava aos credores de sua esposa que nunca mais responderia por ela. A resposta de Tibúrcia foi não falar mais com ele até sua morte, embora convivendo na mesma casa. Quando Salvador morreu, 30 anos depois, sua esposa mandou erguer um busto em homenagem a ele na Recoleta, mas deixou instruções expressas para que, quando de seu falecimento, se erguesse outro a ela, mas de costas para o marido, como uma vingança póstuma. Na parte superior do mausoléu, uma escultura de Cronos, o Deus do Tempo. Rancor eterno.

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8 comentários

  1. julho 28, 2017 at 7:54 am — Responder

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  2. julho 14, 2017 at 1:52 am — Responder

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    março 29, 2017 at 10:44 pm — Responder

    Seu texto é saboroso, Ademir!

  6. Geovania Alves
    outubro 26, 2016 at 8:57 pm — Responder

    Vixi !! O que deve ter de Tiburcia por aí querendo ver o maridão pelas costas . Rsrsrsrs

  7. Giglio
    outubro 26, 2016 at 10:46 am — Responder

    Ao contrário de você, eu não teria como compartilhar com o público minhas experiências dentro de cemitérios. Ótimo texto. Muitos outros cemitérios aguardam a sua visita. Temporária, digo.

  8. Dani
    outubro 25, 2016 at 9:10 pm — Responder

    Me arrepiei com a história da Rufina! E esse túmulo, gente… :-O

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