Compaixão e crueldade

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A mulher negra, dessas que não se consegue adivinhar a idade, subia a ladeira íngreme e estreita com um filho no colo. O cansaço quase insuportável estava impresso em seu rosto suado. O bebê ia protegido do sol forte por um pano branco. Cruzei com ela quando voltava do almoço, no carro refrigerado pelo ar-condicionado. Pensei em parar, oferecer carona até o ponto de ônibus ou ao hospital, para onde, imaginei, ele poderia estar levando o filho doente. Perturbado pela cena, segui meu trajeto de volta ao trabalho. A mulher negra com o filho no colo, a quem eu poderia ter aliviado o sofrimento, veio comigo e agora me atormenta.

***
No caminho do trabalho para casa, uma favela. Talvez a maior da cidade, os barracos há muito tempo deram lugar a prédios de alvenaria, alguns deles com vários andares desalinhados e com os tijolos à mostra. Nesse cenário, o que não falta são crianças sujas e cães sarnentos, em meio a restos de sofás. No entardecer poeirento, uma cadela no cio e com as tetas caídas, que denunciavam a maternidade recente, atraía um bando de machos. A cena era observada pelas crianças sujas e malvadas. A cadela se deixava subjugar e era montada pelos cães de vários tamanhos que a rodeavam, como que a aguardar a vez. Os meninos e meninas jogavam pedras, pedaços de pau e chutavam os animais. Alguns homens bebiam cachaça e se divertiam no bar improvisado à beira da rua.

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Já passa das 11 da noite. No ponto de ônibus, o casal aguarda a condução para levá-lo para casa. O homem, metido em um terno alguns números maior, segura com uma das mãos uma bíblia com capa de couro preto. Na outra, aperta a mão de um menino de aparentes 5 anos, cabelo com corte americano e sandália de borracha. A mulher leva ao colo o menorzinho, abatido pelo sono. Chega o ônibus, todos entram e o menino deixa cair um dos pés do chinelo. O motorista arranca e, na sarjeta imunda, a sandália faz companhia a pontas de cigarro e papéis de bala.

***

O telefone toca e uma voz conhecida pergunta se ainda me lembro dele. O antigo colega de trabalho pede desculpas pelo incômodo e diz que gostaria de falar comigo pessoalmente. Dou o endereço do meu trabalho e marco para dia seguinte. Na hora designada, o homem, vestido com uma camisa azul já gasta e uma calça social, me abraça, relembra amenidades do antigo emprego e dos colegas. A empresa foi à falência e deixou a maioria a ver navios. Ele me conta que, por causa da idade e de problemas de saúde, já não consegue arrumar um emprego. A aposentadoria mal lhe permite o sustento próprio e da mulher, também doente. Ele apresenta seu currículo e se oferece para trabalhos diversos, que vão de organizar arquivos a intermediar compras e acompanhar o andamento dos cronogramas. Explico que as empresas de hoje são mais enxutas do que no passado e que, para sobreviver, muitas delas juntaram funções e extinguiram cargos. “Custo pouco e posso ajudar em muitas tarefas”, implora. Prometo tentar ajudar. Despeço-me e, ao vê-lo virar as costas, jogo seu currículo no lixo.

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1 comentário

  1. Maria
    junho 22, 2017 at 7:59 pm

    São excelentes os textos de Ademir Pernias. Com certeza, não são para amadores, que querem ler amenidades ou jocosas elaborações de notícias ou fatos. Os algozes dos deserdados da sorte somos nós. O desempregado me fez chorar.
    Grata pelos escritos inquietantes, Ademir Pernias.
    Maria

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